Aqui eu guardo meus escritos.
Obrigado pela visita.

Um cidadão adorava filas. Saía de casa e, mesmo não precisando, entrava na primeira fila que encontrava, sem ao menos saber para que servia. Sua tara era tão grande que quando chegava a vez ele a cedia e retornava ao início. Depois de várias cedidas ele resolveu ser atendido:
— Nome?, perguntou o atendente:
— Papafila.
— Papafila?
— Isso.
— Que nome estranho!
— É que quando nasci minha mãe estava na fila do açúcar.
— Na fila do açúcar?
— Sim, do açúcar Pérola, num subúrbio do Rio de Janeiro que não me lembro muito bem, acho que Engenho de Dentro, em 1961. Estava grávida de mim, chegara de madrugada na usina e a fila já era quilométrica. Então alguém mais à sua frente se solidarizou e ela recebeu seus dois quilos antes do tempo previsto. Daí ela me deu este nome quando nasci.
— Muito bem, Sr. Papafila. Identidade.
— Para quê?
— Ora, não brinque. Vai dizer que o Sr. está nesta fila sem saber o porquê?
— Estou sim. Adoro filas.
— Então vou lhe dar uma má notícia. Esta fila é para as pessoas assinarem aqui, ó.
— O que é isso?
— Um abaixo-assinado para acabar com as filas, principalmente as dos bancos.
He, he. Que tal a historinha? Seguinte: topam nos reunir às segundas e quintas para enchermos o plenário da Câmara de Vereadores de Bom Jesus do Itabapoana e protestarmos barulhentamente contra as filas nos bancos da cidade? Hein? Olha que em muitos municípios brasileiros o tempo de espera é de no máximo 15 minutos. Já é lei há muito tempo. Quantos e quantas de nós não contam experiência semelhante a esta: entrei na Caixa Econômica no dia 20/11 às 10h10 e saí às 13h. Três horas para trocar um bendito cheque. Apenas um caixa. Para todo mundo, inclusive os idosos, que têm a preferência. Eu olhava para a porta, rezando para não entrar mais idosos. Ao mesmo tempo, para os caixas, numa súplica muda aos céus para que aparecesse mais um, unzinho.
Esperanças vãs. Nada de caixa, tudo de idoso. O pior é que não há a quem apelar. Nossos legisladores ficam enfurnados na monotonia, naquela algaravia de velório da qual emana pouca ou nenhuma proposição inteligente, arrojada, criativa, benéfica para o município e seus eleitores. Ô raça! Engraçado é que as lotéricas também ficam invariavelmente entupidas de gente. Maldição aí do nosso personagem Papafila. Incrível isso. O remédio contra as filas se tornou veneno. Foi algo assim parecido como a redução de cadeiras nas câmaras de vereadores Brasil afora. Reduziram a quantidade da vereança, mas não significou redução dos custos, vez que menos vereadores passaram a ganhar mais, neutralizando tudo. As lotéricas foram autorizadas a operar alguns serviços antes restritos aos bancos, mas estes reduziram os funcionários, significando a continuidade das filas, belo negócio (para os banqueiros, claro).
Além das filas, tome mau atendimento. Fui pagar um carnê dia destes no Bradesco, mas tinha perdido o distinto. Pensei: hoje em dia a gente faz tudo sem papel mesmo…
— Vim pagar o carnê. Estão aqui meu nome, identidade, CPF, certidão de batismo, impressões digitais, etc. porque acho que perdi o livro.
— Livro?
— Apelido do meu carnê. Grosso como um best-seller.
— O Sr. tem que telefonar para a financeira e pegar a segunda via.
— Preciso pagar hoje, me falta o tempo.
— Lamento, respondeu o homem do caixa, sem lamentar de verdade, óbvio.
Olhem que eu fui pagar. Imaginem se fosse receber!
— Sem o papelzinho?, diria o burocrático atendente, boquiaberto. — O Sr. não se dá ao respeito? — Provavelmente me censurasse assim e me mandasse ao diabo que me carregue.
Publicado em novembro/2008

Os números das eleições para presidente no Vale do Itabapoana desmoralizaram a esperança e fortaleceram o medo e a resignação de uma população que resolveu apostar no “deixa tudo como está para ver como é que fica”. Exceto em Bom Jesus do Norte, onde o trabalho do PT local e o empenho do prefeito Ubaldo Martins no segundo turno parecem ter convencido a maioria de que Lula seria a melhor opção (embora tenha vencido por uma pequena diferença), Apiacá, São José do Calçado e Bom Jesus do Itabapoana não quiseram arriscar e tentaram surpreendentemente manter uma situação reconhecidamente ruim, mesmo admitindo-se que José Serra pouco tem a ver com isso.
Grosso modo, duas interpretações – sem possibilidade de fugir ao maniqueísmo – podem ser dadas ao fato de Lula ter perdido aqui: uma, que esta parcela do eleitorado foi sábia em descartar um candidato cujo partido que congrega desde a esquerda moderada até os batráquios xucros, xiitas e xaatos tenha tido desta vez a preferência de capitalistas ferrenhos e historicamente descompromissados com as causas sociais de seus co-irmãos. Talvez o macarrão amoleça quando entrar na panela, pareceu ser a interpretação no inconsciente coletivo desses eleitores. A outra interpretação tem o agravo de conter o pernicioso elemento do preconceito, aquela velha história do operário que não cursou uma universidade e que não possui a sensibilidade para apreciar música de câmara, portanto incapaz de conduzir o país com competência.
Bom Jesus do Itabapoana, principalmente, deu um show de rejeição a Lula. Nada menos do que 2806 votos válidos foi a diferença pró Serra, quase 15% do total. Em circunstâncias normais esta diferença não seria assim tão extraordinária; no entanto, difícil entender os motivos pelos quais um candidato reverenciado nos quatro cantos do país (em alguns estados com mais de 80% da preferência dos eleitores) tenha sido repelido neste município, especialmente tendo contado com o apoio dito incondicional de Anthony Garotinho (candidato a presidente derrotado no 1º turno, mas campeoníssimo em Bom Jesus/RJ) e de sua esposa Rosinha (eleita governadora do RJ ainda no primeiro turno), casal que caiu nas graças desta mesma população e por isso foi generosamente sufragado nas mesmas urnas hostis a Lula.
Esta curiosa remada contra a maré, de toda sorte, não foi boa para as lideranças municipais do Vale do Itabapoana porque, de duas, uma: não se engajaram efetivamente, com a obstinação de um perdigueiro, em favor do que a imensa maioria dos brasileiros considerava como mudança, ou, se o fizeram, viram arrefecer a faculdade de congregar os eleitores às suas causas. E esta presumível perda de prestígio pode ser um pequeno sinal do cenário que este eleitor prepara para 2004.
Publicado em outubro/2002

Madrugada de 20/4. Na Rede TV, sucessora da Manchete, a apresentadora do programa “Na Cama com Monique”, Monique Evans, apresenta cenas de sadomasoquismo. Deitado de costas no chão com uma coleira no pescoço, um rapaz tem sobre si, sentada em seu rosto, usando um biquini de napa, ornamentada com muitos metais característicos dos adeptos dessa tara sexual, uma “dominadora” com a área dos genitais na boca do rapaz. Ela traz nas mãos uma vela vermelha acesa, deixando pingar gotas fumegantes de parafina no peito do “dominado” ao som de frases ofensivas e rebolados frenéticos na cara do sujeito. A veterana apresentadora, com a naturalidade que caracteriza a apelação dos programas televisivos instiga os parceiros e fala: “não vale soltar um pum na cara dele, hein?”. “Você lavou a ´xana´ hoje?”, pergunta olhando para os demais convidados, uns quatro ou cinco, com a observação de que “tem gente que prefere com ´ela´ sujinha.”
Muda-se o canal. Na Record, o assunto é exorcismo. Um bispo da Universal, moreno, calvo, alto, bem articulado, rápido no raciocínio, esforça-se para convencer no papel do bom samaritano salvador de almas executando performances nos “possuídos” vitimados por “encostos”. Pessoas com as mãos para trás simulando rigidez cadavérica, dedos tesos para dentro, empenhadas em respirar com dificuldade pelo cansaço de carregar dentro de si ninguém menos que o diabo, executam um sinistro concerto de esgares numa coreografia patética. Todos acentuam o tom da voz (o diabo, quem não sabe?, fala grosso e abusa da ironia) atropelando as sílabas, com o máximo cuidado, porém, de se fazer entender. O bispo pergunta invariavelmente: “o que você quer com essa pessoa, diabo?” As respostas são as mesmas: “hum, hum, quero separar ela da família, tirar o seu emprego, fazer da vida dela um inferno”, e por aí afora. E o bispo, compenetrado, agarra a possuída criatura pelos cabelos e diz com impressionante autoridade: “sai dela, agora! Sai diabo, eu te ordeno”, acrescentando depois de uma bem calculada pausa para aumentar a já alucinante expectativa para o êxtase final: “saia, em nooooooome de Jesus”, logra o desfecho para júbilo da plateia extasiada.
Em comum nos dois episódios é que hoje em dia não mais existem ética e dignidade em certas formas delirantemente encontradas para ganhar dinheiro. Explorar e manipular a boa-fé das pessoas, no caso do bispo; afrontar os valores e os princípios morais, no caso da Monique já não passam de detalhes conservadores sem vez na predatória competitividade do dia a dia.
Publicado em abril/2003

Bacalhau existe mas poucos lhe viram a cabeça. Mal comparando, na última Festa de Abril de Bom Jesus do Norte foi realizado um Baile de Gala no ginásio do Ordem e Progresso. Bocas de Matilde contam que foi “cabeça de bacalhau”! E mais: que só não foi um retumbante fracasso porque, ainda segundo Matilde, 80% dos presentes eram pessoas oriundas da vizinha Bom Jesus do Itabapoana.
O ipsilone é o seguinte: idealizaram o baile, dizem, como forma de arrecadar recursos para instituições filantrópicas, mas parece que o fizeram de forma amadorística, sem cuidar da divulgação, do apelo publicitário. Não sei se proposital (era um ambiente, talvez, para receber apenas a nata da sociedade?), ou resolveram de última hora, mais na base do improviso. O fato é que a iniciativa edificante mereceria aplausos ensurdecedores se o investimento fosse privado. Mas como fazer caridade com chapéu alheio é mais fácil, tomaram-se recursos públicos em nome do público para a realização do luxuoso evento que, segundo um dos poucos presentes, teve uma belíssima decoração, e que o baile, em si, foi apurado, escorreito (deixem-me gastar o Português).
São os tais negócios: para uns poucos o socialismo tupiniquim individualiza os lucros e pulveriza os prejuízos, não há empreendimento de risco para estes. Trocando em miúdos: pega-se dinheiro do contribuinte, investe-se em fábrica de guarda-chuva para nordestino, por exemplo, e, se num aborto da natureza der lucro, este fica no bolso do “audacioso empreendedor”. Mas se der prejú, que é o mais provável, este prejú é nosso, meu, seu, pois somos nós que abastecemos os cofres públicos através dos impostos, taxas e contribuições que recolhemos. No caso em tela, o lucro seria das entidades assistenciais, mas é pouco provável que a arrecadação tenha sequer empatado com as despesas.
Como é pressuposto que investimentos públicos devem beneficiar a coletividade, este baile contrariou este princípio, é evidente, pois o público que dele mais deveria tirar proveito, ainda que pagando, foi devidamente escanteado. Público, aliás, que deveria ser majoritariamente o bom-jesuense-do-norte, já que a festa da cidade, que estimulou a realização do baile, era sua. Raciocinando assim, pode-se afirmar que o não-convite público para o baile foi usurpação de direito, espécie de apropriação indébita de uma tradição histórica que pertence a todos.
Tudo errado, como se vê. Se era para levantar recursos para os velhinhos e/ou as crianças dos lares, tanto mais importante a divulgação, a popularização do evento. Matemática simples: mais gente, mais arrecadação. A maneira como aconteceu, inclusive, dá margens a dúbias interpretações: será que se quis na verdade reunir a sofisticação social usando a pobreza como justificativa? Como se um yupie ou uma madame resolvesse reunir seus iguais para uma festinha particular usando dinheiro público e deixando no caixa, como comprovante, a impostura da “ação social em prol dos menos bafejados pela sorte?” Ou será que realmente os objetivos foram nobres, mas faltou competência na organização?
Como em tudo há um lado bom, o episódio foi útil para iniciativas futuras, que deverão ser idealizadas de forma diametralmente oposta, com planejamento e intuição mais acurada para a boa relação custo/benefício, porque o dinheiro do povo não é capim. E parece sintomático que algo tinha de pairar inexplicável, pois nem toda a imprensa local, caixa de ressonância da sociedade, foi informada do baile realizado, repito, com recursos da municipalidade ou angariados em seu nome.

Este caso é verídico.
Assuntinho besta, sô. Mas é dele que vou falar. Ouçam se quiser, quero dizer, leiam. Deu no Fantástico, vejam a que ponto chega a falta de assunto. E se deu no Fantástico, dá também aqui.
Bolsa de mulher. Tradução: objeto mais caótico que o trânsito de São Paulo, mais bagunçado que casa de mãe Joana, mais superlotado que presídios capixabas. Batom, lápis de pintar cílios — de diversos modelos, cores e tamanhos — estojo de maquiagem, perfume, desodorante, escovas de dente e de cabelo, creme dental, absorvente íntimo, telefone celular, caneta, lencinho descartável, carteira de documentos, tesourinha e alicate de unha, cigarros, isqueiro, Dipirona, agenda, chaves, óculos de sol e de leitura, recibos e notinhas comerciais acumulados desde muito tempo, talão de nota fiscal, um livro emprestado que reza a tradição não será devolvido (se bem conheço aquela amiga que me dera uma carona), receitas culinárias e médicas e outras tralhas mais. Ela acrescentou que às vezes tem até dinheiro, embora ressalvando que muito raramente.
Usando um jargão dos jovens, fiquei bolado nesse dia. O celular toca no banco de trás do carro onde estava a bolsa obesa (Epa! Bolsa obesa dá cacofonia. Será que devia escrever obesa bolsa? Xiiii, piorou! Fica assim mesmo). Peço licença à proprietária da bolsa incidental, pois ela (a dona) estava ao volante. Abro-a e desando a procurar o aparelho dentro da dita-cuja, no tato. Nada. E a musiquinha tocando insistentemente. Cadê o danado?, pensava já meio irritado. A musiquinha toca muito e para. Neca de celular que começa a tocar de novo. Será que estou tendo alucinações, sonhando que estou acordado e, como a letra da música antiga, acordo pra ver e estou dormindo? E a musiquinha que não dá trégua? O celular dela, de outra marca, lá, impávido e quieto. Deve ser assunto urgente, penso, para aumentar o desespero. Radicalizei e, com sua aquiescência, despejei tudo no banco do carro, o que foi útil apenas para aferir a quantidade exagerada de trecos que as mulheres carregam. Mas neca de piripitiba do maldito celular.
De repente, o susto, meus pelos já se eriçando. A musiquinha toca novamente como que por encanto, advinda talvez do mundo das trevas. Como é possível? Ela para, saio do carro, levanto o assento traseiro, realizo uma busca minuciosa em todas as ´trâncias´ e reentrâncias, vasculho o chão, os bancos, os pedais, o porta-luvas. Uma busca digna de Sherlock Holmes, que redundara…, em nada. E a musiquinha? Quem me chamava devia estar ansioso (a) para…, Santo Deus: terá ocorrido algo de ruim com um familiar ou amigo?
Eis que, no auge da exasperação, pego a bolsa vazia, viro-a ao avesso e noto um volume estranho, um pequeno ressalto no forro. Enfio a mão por um rasgo até então invisível no canto superior e…, tchan, tchan, tchan… aparece o distinto com o ar mais solene do mundo, a dignidade eletrônica intacta mesmo surpreendido no crime. Retiro-o do seu refúgio odioso, olho para ele e sinto-me contemplando um garotinho com o ar mais inocente do mundo, como o diabólico Damien, de “A profecia”. Tive a impressão que ele até encetava um sorrisinho maroto pela peraltice.
Ah! E recusou-se terminantemente a tocar de novo. O número que chamava? Vejam que infâmia: sem identificação!
Publicado em março/2010